segunda-feira, 19 de abril de 2010

Carta das Comunidades Extrativistas de Machadinho D’ oeste

TRECHOS DA MANIFESTAÇÃO ENVIADA AO MINISTÉRIO PÚBLICO PELAS COMUNIDADES EXTRATIVISTAS DE MACHADINHO DO OESTE

Os fatos narrados neste expediente relata a situação de total desmando praticado por políticos, fazendeiros, funcionários públicos e pistoleiros dentro da Reserva Extrativista Estadual Rio Preto Jacundá e outras unidades de conservação. Há muitos anos esperamos uma ação concreta por parte dos poderes constituídos para fazer cessar a criminalidade e preservar o movimento extrativista em Rondônia, porém nunca tivemos êxito. Assim apelamos para o Ministério Público tomarem providencias, colocando a sua disposição nosso conhecimento sobre a área, testemunhas e visitas nos locais.

(...)

Aos senhores Ataíde de Jesus Santos e Elizeu Berçacola, manifestamos nossa gratidão em reconhecimento pelos trabalhos que realizaram em defesa de nossas matas e nossas comunidades. É de nosso acordo inclusive, registrar nesta carta que o primeiro por agir em defesa dos nossos interesses e pela conservação de nossas matas sofreu sérias retaliações, teve sua família vitimada por ações violentas e foi ao final exonerado e perseguido, ficando afastado das funções (...) este senhor com a qualidade de um homem sensível e com a formação semelhante a dos franciscanos, detinha o conhecimento de nossa história e de nossas lutas, foi sábio ao elaborar um diagnostico minucioso de nossas florestas e de nossa conjuntura sócio econômica e ambiental. A partir do ano de dois mil e sete, promoveu a reestruturação do CDREX, o Conselho Deliberativo das Reservas Extrativistas e através deste colegiado, promoveu uma operação que nos surpreendeu, criou comissões de auditorias para averiguação das aplicações dos recursos dos manejos, contribuindo no processo de gestão de nossas comunidades, empreendeu mais de quarenta operações de combate a pesca predatória no Rio Machado, garantindo o repovoamento dos rios da região e o alimento sagrado para nossas famílias, protegendo nossa fauna e reeducando as pessoas para o uso dos recursos pesqueiros de modo sustentável. Estabeleceu um período de trabalho e respeito para com o nosso povo e nossas reservas florestais. Conquistou a credibilidade das autoridades, promoveu um trabalho de educação ambiental jamais visto em nossa região de modo que conseguiu a parceria dos agricultores convencendo eles através das suas associações que era preciso proteger as reservas.
Nos programas de radio nosso povo era por ele lembrado e durante sua gestão as portas da SEDAM sempre estiveram abertas para nós e para nossos irmãos. Através da religião ele ensinou a Teologia Ambiental, matéria profundamente conhecida por ele, e reconhecida pelos evangelizadores de nossas igrejas. Nas matas, não havia mateiro dos nossos que não reconhecesse a sua capacidade de penetração localização e sobrevivência na floresta, sendo como se fosse sua casa e para defender a floresta muitas foram as operações de combate e as de inteligência.
A sua dedicação, honestidade e coragem, educou a muitos, espantou corruptores, levou a presença das autoridades dezenas de criminosos e assim sendo, despertou a ira nos novos jagunços que não achando meios de o intimidar com as constantes ameaças, inclusive de matá-lo, fez com que chegasse ao seu conhecimento de que alguém de sua família poderia sofrer em seu lugar, forçando-o a retirar temporariamente sua esposa e filhas para outro estado para que assim pudesse levar a cabo as determinações que recebera diretamente do Governador do Estado.
Inúmeras foram as diligencias empreendidas por este bravo senhor e sob o seu comando, nós diretores e comunitários, policiais civis e militares, se apresentavam como voluntario, uma vez que seus subordinados, em virtude de suas limitações físicas e emocionais não lhes permitiam acompanhá-lo. Por isso, as vezes o acompanhamos em incursões que duravam três ou quatro dias e as vezes mais de quarenta quilômetros eram percorridos a pé no interior de nossas reservas a fim de levantarmos elementos para planejamento de ações repressivas. Todas estas diligencias e operações estão minuciosamente registradas e seus superiores tinham conhecimento das matérias que aqui estamos tratando.

(...)

Que pena que as coisas não aconteceram conforme Elizeu havia planejado, os corredores do palácio do governo não deram conta da quantidade de ladrões que invadiram o palácio para exigirem do governador a exoneração do diretor de Machadinho (...) Exatamente quando as ameaças aumentavam, o governo recuava e a cada dia deixava nosso guerreiro vulnerável. Foi nesse período que o mesmo tirou as crianças da escola e as encaminhou para o espírito santo, onde permaneceram em local seguro (...) Elizeu recebeu ordens para não comandar a equipe e nós entendemos os motivos.

(...)

O Senhor Ernandes Santos Amorim é um dos nossos inimigos, pois é sabido as suas ações de desmatamento e grilagem de terras públicas como já noticiamos e conforme fora constatado pelo IBAMA e pela sedam, este criminoso em total afronta as leis e as instituições. Alem de derrubar grandes áreas, Introduziu brachiaria na Floresta de Rendimento Sustentado Rio Machado e derrubou em área de preservação permanente na rio preto jacundá para facilitar o pouso de seu gafanhoto de ferro do outro lado do Machado onde pretendia engordar 3.800 cabecas de gado. Como teve suas intenções dificultadas pelas constantes diligencias de Elizeu na região, declarou inclusive em reuniões e programas de radio, a seu modo o seu ódio pelo referido senhor, seguida de ameaças indiretas feitas pelos seus seguidores. Agora inclusive publicou um calendário com os dizeres 'primeiro o home e depois o meio ambiente'.

Considerando as muitas reclamações de nossa parte o ministério público solicitou com base numa revista publicada pelo GTA - Grupo de Trabalho Amazônico a situação de nossas reservas e no nosso caso a Rio Preto Jacundá, onde é falado sobre uma área que já havíamos denunciado, a mesma foi invadida por Gilberto de Assis Miranda e no local foi construído casas cocheiras flutuantes para embarcações e outros. O expediente encaminhado pelo MP foi reiterado e o pessoal de Porto Velho por dois anos seguidos não tomou providencias e agora recentemente, Elizeu esteve na reserva juntamente com a equipe de fiscalização e tomou providencias, a saber: determinou a paralisação das atividades, a retirada dos bois e a remoção das cercas, foi lavrado um auto de infração e uma notificação estabelecia um prazo de dez dias para apresentação junto ao escritório para esclarecimentos e apresentação de documentos, as placas indicativas da fazenda existentes foram removidas e no local foram afixadas as placas oficiais do estado de Rondônia. Dias depois a mando de Gilberto, um de seus jagunços esteve na casa de Elizeu para tirar satisfações e ameaçando-o, Elizeu registrou ocorrência do feito na Delegacia de Polícia.

(...)

Não queremos ser novamente confundidos com os fora da lei que encontraram em Cujubim o ambiente próprio para formarem seus bandos, entendemos que é preciso que as instituições venham a agir de modo a evitar que tenhamos que agir com nossas próprias mãos. Queremos fazer com que uma vez mais, o nosso grito de socorro seja ouvido e de imediato atendido. Com a saída do Elizeu e agora a do Brito, que deverá acontecer em março, estamos nos sentindo todos desprotegidos, e sendo um período de eleições pouco, ou nada mais irão fazer."

-----------

Antonio Flávio Barros Setúbal,
Presidente da ASM
José Pinheiro Borges, Presidente da Asmorex
Antonio Teixeira Santos, Líder Comunitário
Maria da Conceição Macedo, Tesoureira da OSR
Osvaldo Castro de Oliveira, Coordenador Regional
Erni Santos Lima, CNS Diretor Secretário Coopflora

Nenhum comentário:

Postar um comentário